OKUFETI(KA) – Iris Buchholz Chocolate

30 Mai, 2019 - 3 Ago, 2019

O tempo viajou pelo céu como uma flecha

Com as minhas mãos

Do passado e do futuro

Hei-de agarrar duas pedras

E correr com elas

Mesmo com a mais leve brisa voarei,

Invocarei um vento, para vir

E apagar todos os vestígios

E sentar-me-ei como um órfão

Na berma da estrada, a chorar

As minhas duas pedras.

                   —Abdulkareem Kasid

 

O presente está em constante diálogo com os sujeitos e objectos do passado. O passado não pode ser revertido, mas pode ser compreendido nas suas várias dimensões. Tal como não há um único período importante do passado, não há uma única versão importante do passado.

Produzir diferentes formas de conhecimento sobre o passado e discorrer sobre a sua conservação, reconstrução ou preservação, depende da escala em que o desejamos imaginar, interpretar ou reinterpretar. Quando nos libertamos da noção de que o passado pode existir independentemente do presente, pelo facto de já ter ocorrido, desencadeamos uma mudança ontológica – do distanciamento generalizado ao engajamento localizado, desenvolvendo a consciência de que a intimidade entre a mente humana e o mundo material é um processo que se repete infinitamente, com características próprias dos espaços e tempo em que ocorrem. As evoluções tecnológicas, sociais e políticas alteraram a forma como nos relacionamos com o meio em que vivemos, os objectos que o compõem e o próprio conceito da História. Mas, ao analisarmos as antigas camadas de desenvolvimento e interacção cultural, reconhecemos que o passado pode ter sido tão subtil e dinâmico como o presente, exigindo novas historiografias.

Okufeti(ka) procura mostrar como as nuances do passado podem ser reimaginadas de uma forma poética. Os desenhos, carimbos, estampas, estudos de cor e instalações usando latão, cobre, carvão, argila, cera, ráfia, chifres, penas e som ecoam a linguagem, a memória, o mito, as práticas culturais e sociais de uma sociedade ancestral Ovimbundo, no planalto central de Angola, como um lugar real e imaginado, ocasionando um olhar crítico sobre a história das antigas culturas materiais como pensamos que as conhecemos.

Desenterrando a construção moderna de narrativas arqueológicas sobre sociedades africanas antes do impacto do tráfico transatlântico de escravos e colonização, a artista Iris Buchholz Chocolate aspira a uma reconstituição, ou mesmo restituição, de uma história perdida ou mesmo desconhecida, questionando estruturas hegemónicas de olhar, aprender e sentir a história, desafiando a nossa capacidade de renegociar a nossa percepção do passado e incorporá-lo no presente.

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