Arco Lisboa (Opening)

TIAGO BORGES

C.O.N.S.T.R.U.C.T.I.O.N. (Prémio Opening do Arco Lisboa 2019)

C.o.n.s.t.r.u.c.t.i.o.n. é uma instalação que actualiza a potência disruptiva do trabalho de Tiago Borges (Luanda, 1973) e os gestos distópicos que vêm marcando a sua produção artística. O uso de materiais low-fi, a disponibilidade em aproximar referências díspares (quase surrealizante) ou a desconstrução da iconografia pop e política dos movimentos de independência africanos remete para projetos anteriores, como por exemplo AfroUfo, que Tiago Borges e Yonamine apresentaram na Bienal de São Paulo (2014). Porém, se ali a ficção ufologista prevalecia, aqui o comentário é endereçado à ruína da modernidade e à própria história, configurada como tragédia primeiro, e como farsa de seguida (Marx).

Se o mundo continua em crise, a história não se tornou progresso, o capital não supriu as desigualdades, e Deus morreu (Notre-Dame ardeu), o que fazer? Ao invés de alimentar a neurose da culpa que perpassa hoje o Ocidente, o gesto artístico de Tiago Borges vai ao encontro do híbrido e do impuro enquanto marcas dos processos de modernidade não canónicos desenvolvidos fora do eixo Europa-América do Norte. “A pureza é um mito” ou “Incorporo a revolta”, do artista brasileiro Hélio Oiticica, a ironia inscrita no trabalho de Tiago Borges, a luta poética de tantos outros artistas (músicos, hackers, artesãos, designers) da sua geração, celebram a relação entre mistura e modernidade e dão-nos a entender a especificidade das histórias na contramão da História.

C.o.n.s.t.r.u.c.t.i.o.n. reúne signos desarticulados do seu significado oficial e responde ironicamente à ideia de memorial ou monumento. Heráldicas, QR Codes, “souvenirs” políticos e estandartes lembram os despojos de uma batalha, adensam o vocabulário do artista e a sua liberdade criativa, indo muito além de qualquer significado estritamente político.

É esta a pátria impura de Tiago Borges. Entre utopia e alegria, misturando a energia vital e a contestação da norma…. C.o.n.s.t.r.u.c.t.i.o.n.

Marta Mestre, Maio, 2019